Pular para o conteúdo
SOMÁTICA — Consultoria em Logística

Insights · Método na logística CCT

Simulação de sistemas x planilha

As oito etapas de um projeto de simulação de eventos discretos e o que separa a técnica da conta determinística. A planilha não erra a aritmética. Erra a premissa.

João UmbiruçuConsultor em Logística10 min de leitura
Transbordos carregados aguardando em fila no talhão

A maior parte das frotas de cana do país é dimensionada pela mesma conta: a meta de produção dividida pela capacidade diária de cada caminhão. A capacidade vem do tempo disponível dividido pelo tempo de ciclo, multiplicado pelo peso médio da carga. E o ciclo é a soma de cinco parcelas.

É uma conta correta, rápida e útil. Ela também tem um ponto cego, e vale entender exatamente onde ele está — porque não está na aritmética.

Como a conta funciona

Na frente de corte 1 do estudo, com meta de 3.900 t/dia, o ciclo do caminhão se compunha assim:

42,8deslocamento vazio, min
12,0permanência no campo, min
55,1deslocamento carregado, min
15,1tempo de usina, min
11,9manutenção, min

Somando: 136,9 minutos de ciclo, o que dá 557 toneladas por dia por caminhão, e portanto 7 rodotrens para atender aquela frente. Repetindo o cálculo nas cinco frentes de corte, chega-se a 27 rodotrens para a meta de 19 mil toneladas diárias.

Cinco parcelas e uma divisão. É assim que se dimensiona.

O ponto cego

Cada uma daquelas cinco parcelas entra na equação como um número só: a média. Na operação real, cada uma tem uma distribuição — foi o que a coleta em campo mostrou, evento por evento.

EventoDistribuição ajustadaAmostra
Descarga na usina4,1 a 5,7 minNormal (4,7; 0,31)n = 94
Pesagem do caminhão0,7 a 2,3 minBetan = 92
Parada em borracharia8 a 176 min8 + Weibull (141; 1,09)n = 516
Reparo mecânico da colhedora5 a 650 min4 + Lognormal (105; 145)n = 285

Distribuições ajustadas em software de estatística a partir de medições da safra.

Repare na amplitude do reparo mecânico: de 5 a 650 minutos. A média desse conjunto não descreve nem o reparo rápido nem o demorado. Ela descreve um caso que quase nunca acontece.

Média não soma. Quando cinco tempos variáveis se encadeiam disputando os mesmos recursos, o resultado não é a soma das médias — é pior que ela. É aí que nasce a fila que a planilha não tem como representar.

Há um agravante mais sutil. Todo processo pressupõe alguma fila de espera, e essa espera já está embutida nos tempos médios medidos. Se você quiser testar uma melhoria — reduzir o tempo de descarga, por exemplo — a planilha estática não tem como dizer quanto a fila diminuiria em consequência. O número que você mudaria já contém aquilo que você quer prever.

Na simulação, o relógio não anda. Ele pula.

Simulação, na definição de Pegden, é desenhar o modelo de um sistema real e conduzir experimentos com ele para compreender seu comportamento e avaliar estratégias de operação.

O “de eventos discretos” diz como o tempo passa dentro do modelo. Entre um evento e o seguinte nada muda no sistema, então não há o que calcular: o relógio salta direto para o próximo evento. Chega ao pátio, engata, inicia carregamento, desengata, sai da usina.

Três características definem a técnica:

Dinâmico. O sistema é estudado ao longo do tempo, não num instante congelado.

Estocástico. Cada tempo é sorteado da sua distribuição a cada ocorrência, por amostragem de Monte Carlo. O mesmo caminhão, na mesma viagem, pode gastar 6 minutos ou 200 na manutenção.

Discreto. O estado do sistema só muda quando um evento ocorre.

A consequência é a que interessa: a fila não é variável de entrada. Ela não está escrita em lugar nenhum do modelo. Ela é resultado da disputa pelos recursos entre um evento e o seguinte.

Simulação não é rodar software. É um projeto.

Oito etapas, distribuídas em três blocos — concepção, implementação e análise.

1 · Objetivos e definição do sistemaFronteiras, escopo e restrições; entender como o sistema realmente funciona
2 · Modelo abstratoO modelo que ainda só existe na cabeça do analista
3 · Modelo conceitualDiagrama de blocos ou pseudocódigo: componentes, variáveis e lógicas de interação
4 · Levantamento de dados de entradaDistribuições, medidas de eficiência, fatores a variar e seus níveis
5 · Modelo computacionalO conceitual escrito em software, verificado e validado até virar modelo operacional
6 · ExperimentaçãoAs rodadas de simulação que geram os dados
7 · Análise e interpretaçãoO que os resultados dizem — e o que eles não dizem
8 · Implementação e documentaçãoResultado em uso, constatações registradas, modelo documentado

Repare onde está o software: uma etapa, no meio. As outras sete são engenharia de processo.

E o percurso não é linear. Como observam Chwif e Medina, citando Robinson, é uma espiral: as etapas se repetem até os resultados pararem de mudar de uma volta para a outra.

O erro mais comum

A lista de dados é definida pelo modelo. Não o contrário.

A frase é de Chwif e Medina, e contraria o instinto de quase todo projeto. O caminho usual é despejar tudo o que os sistemas têm e depois perguntar o que fazer com aquilo. A ordem certa é inversa: o modelo conceitual é que diz qual tempo precisa ser medido, em que ponto do processo e com que precisão.

Neste estudo os dados vieram de quatro fontes: medição em campo com apontamento manual, registros dos computadores de bordo, sistemas de controle de manutenção automotiva, e o ajuste estatístico das distribuições.

Dado ruim não vira resultado ruim. Vira resultado convincente.

Duas perguntas que sempre confundem

Verificação e validação costumam ser tratadas como sinônimo. Não são, e a distância entre elas decide se o modelo serve para tomar decisão.

Verificação pergunta se o modelo faz o que o analista quis que ele fizesse. É conferência interna: lógica do fluxo, roteiro das entidades, regras de fila, código.

Validação pergunta se a saída do modelo se parece com a operação real. É conferência externa: produção, tempos e filas do modelo confrontados com a usina.

Modelo que não passa pelas duas não é ferramenta de decisão. É animação.

Lado a lado

Planilha determinísticaSimulação de eventos discretos
Dado de entradaum valor por variável, a médiauma distribuição estatística por variável
Filas e esperasnão existem no modelo; compõem a médiaemergem da disputa pelos recursos
Interdependênciacada recurso calculado isoladocorte, transbordo, transporte e usina interdependentes
Pergunta que respondequantos caminhões eu precisoquanto se produz, a que custo, com qual fila
Esforçohorassemanas de coleta, modelagem e validação
Neste estudo27 rodotrens suficientes para 19.000 t/diaos mesmos 27 entregam 16.245 t/dia

A conta previa 12 minutos de permanência no campo. A simulação devolveu 30 — e 85 quando a frota cresceu para 46 conjuntos. O déficit de 3.255 toneladas por dia não estava na aritmética. Estava na premissa.

Planilha não é errada. É rápida.

A conta determinística é a ferramenta certa para ordem de grandeza, primeira aproximação e orçamento preliminar. Foi ela que gerou o cenário base deste próprio estudo.

  • Planilha basta quando o recurso é dedicado, a fila é irrelevante e o valor da decisão é baixo.
  • Simulação se paga quando o recurso é compartilhado, o gargalo se desloca e o decisor quer avaliar alternativas — aumentar ou reduzir frentes, adotar bate-volta, definir quantos reboques reserva.
  • Nenhuma das duas resolve sem apontamento confiável na frente de corte.

E a simulação também tem limite: ela não devolve a solução ótima e não decide nada. Serve para enxergar à frente do tempo e testar alternativas sem interferir na operação. Ela mostra o que acontece em cada cenário — antes de o dinheiro sair.

O resultado prático desse método, aplicado ao dimensionamento de frota, está no artigo sobre os 72 cenários simulados.

Publicado originalmente como carrossel no LinkedIn · baixar em PDF

Quer testar isso na sua operação?

Um modelo calibrado com os dados da sua operação mostra o resultado de cada cenário antes de o dinheiro sair. Comece com uma conversa.

Falar com o consultor