Toda usina que sente falta de cana na moenda faz a mesma conta primeiro: quantos caminhões faltam? É uma pergunta razoável, e a aritmética para respondê-la é simples. O problema é que ela pressupõe uma resposta antes de investigar a causa.
Este texto acompanha um estudo em que a pergunta foi testada até o fim. Mantendo tudo o mais constante, a frota foi aumentada progressivamente, e o resultado de cada configuração foi medido em produção e em custo por tonelada. A conclusão contraria a intuição — e aponta para um recurso bem mais barato.
O ponto de partida
Uma usina com meta de moagem de 19.500 toneladas por dia, com a frota de rodotrens dimensionada pela conta clássica: divide-se a meta de produção pela capacidade diária de cada caminhão. No dimensionamento determinístico, feito em planilha, 27 conjuntos bastavam.
A simulação do mesmo cenário devolveu 16.245 toneladas por dia. Um déficit de 3.255 toneladas diárias em relação à meta.
A conta determinística dimensiona a frota como se não houvesse fila. Na operação real sempre existe alguma espera, e é ela que abre o déficit. Pior: em planilha não há como enxergar o ganho de um reboque reserva, porque a planilha não representa a espera que ele elimina.
A resposta óbvia
O caminho da força bruta foi testado primeiro. Tudo igual — despacho dinâmico, sem reboque reserva, mesma capacidade de colheita e de recepção — variando apenas o tamanho da frota.
| Frota | Produção | Custo |
|---|---|---|
| 27 rodotrens | 16.425 t/dia | R$ 11,20/t |
| 32 rodotrens | 17.656 t/dia | R$ 11,09/t |
| 37 rodotrens | 18.471 t/dia | R$ 11,11/t |
| 42 rodotrens | 18.792 t/dia | R$ 11,26/t |
| 46 rodotrens | 19.014 t/dia | R$ 11,39/t |
Custo mínimo em 32 conjuntos; a partir daí a curva vira para cima. Nenhum dos cinco cenários atinge a meta.
Setenta por cento mais caminhões produziram dezesseis por cento mais cana. E a meta seguiu fora de alcance nos cinco cenários.
Por que a curva vira
A partir do trigésimo segundo conjunto, cada rodotrem adicional entrega cada vez menos cana e continua custando integralmente. Depreciação, manutenção e motorista entram na conta inteiros; a produção entra em migalhas.
Quando o gargalo não é o caminhão, caminhão novo entra na conta do custo e não entra na conta da produção.
Onde o tempo estava
Na conta determinística, a permanência no campo entra como premissa: doze minutos por composição na equação do ciclo, supondo transbordo pronto e nenhuma espera. A simulação devolveu outra coisa — e, mais revelador, devolveu números que pioram conforme a frota cresce.
| Cenário | Tempo no campo |
|---|---|
| Premissa da conta de frota | 12 min |
| Simulação · 27 rodotrens | 30 min |
| Simulação · 37 rodotrens | 56 min |
| Simulação · 46 rodotrens | 85 min |
Série 1: 27 a 46 rodotrens, sem reboque reserva, despacho estático.
A explicação está no acoplamento entre carregar e transportar. O cavalo mecânico ficava engatado durante todo o carregamento, no ritmo da colhedora, não no ritmo dele. Cada caminhão adicional não encurtava a espera — entrava na mesma fila e a alongava.
Desengatar custa menos que comprar
Em vez de mais cavalos mecânicos, semirreboques reserva na lavoura. O caminhão chega, larga o vazio, engata o cheio e sai. O carregamento passa a acontecer sem o cavalo mecânico em cima dele.
Mesma frota de 27 rodotrens: de 16.425 para 19.184 toneladas por dia, e de R$ 11,20 para R$ 9,30 por tonelada. O gargalo nunca esteve no transporte. Estava no acoplamento entre carregar e transportar — e o recurso que resolve isso é o mais barato dos dois.
O ponto de saturação
A mesma lógica que segura a frota de caminhões vale para o reboque reserva. Ele também tem hora de parar.
| Reboques reserva | Custo | Tempo no campo |
|---|---|---|
| 5 reservas | R$ 9,63/t | 13 min |
| 10 reservas | R$ 9,30/t | 9 min |
| 15 reservas | R$ 9,31/t | 8 min |
| 20 reservas | R$ 9,37/t | 8 min |
| 50 reservas | R$ 9,81/t | 8 min |
Depois do décimo conjunto a produção estabiliza, o tempo de campo trava em oito minutos e o custo volta a subir.
Todo recurso tem um ponto em que deixa de destravar e passa a pesar. O trabalho é achar esse ponto antes da ordem de compra, não depois.
O desfecho
Entre os setenta e dois cenários simulados, a configuração de menor custo combinou 29 rodotrens, 10 reboques reserva na lavoura, despacho dinâmico e descarga direta na usina, sem bate-volta. Meta atingida, a R$ 9,30 por tonelada.
| Configuração | Custo | Meta |
|---|---|---|
| Força bruta · 46 rodotrens | R$ 11,39/t | não atingida |
| Simulada · 29 rodotrens + 10 reservas | R$ 9,30/t | atingida |
Dezessete cavalos mecânicos a menos e R$ 2,09 a menos por tonelada. Comparação entre cenários do mesmo modelo, na mesma base de custos.
A decisão cara não era comprar caminhão. Era comprar caminhão sem antes descobrir onde o tempo estava sendo perdido.
O que este resultado não mostra
- O ponto ótimo é daquela usina. Muda com distância, mix de corte e custo de capital.
- O modelo não decide nada — ele mostra o que acontece antes de o dinheiro sair.
- Sem apontamento na frente de corte, nenhum modelo acerta o tempo de campo.
Sobre os valores em reais: os custos são de safra de aproximadamente 2008 e não servem como referência de preço hoje. O que continua válido é a comparação relativa — a ordem entre os cenários, o ponto de saturação e a direção em que a curva de custo vira. Refazer o estudo com custos atuais muda os números; não muda a conclusão.
Simulação não substitui quem opera. Ela tira o palpite do meio de uma decisão de sete dígitos.
Os dados vêm de dissertação de mestrado em Engenharia de Sistemas Logísticos, com modelo de simulação de eventos discretos calibrado para a operação estudada.
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