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SOMÁTICA — Consultoria em Logística

Insights · Simulação na logística CCT

Aumentou 19 caminhões na frota. O custo por tonelada subiu.

Setenta e dois cenários de simulação mostraram onde estava o gargalo na entrega de cana — e por que comprar frota costuma ser a resposta mais cara.

João UmbiruçuConsultor em Logística9 min de leitura
Fila de transbordos carregados aguardando no talhão durante a colheita

Toda usina que sente falta de cana na moenda faz a mesma conta primeiro: quantos caminhões faltam? É uma pergunta razoável, e a aritmética para respondê-la é simples. O problema é que ela pressupõe uma resposta antes de investigar a causa.

Este texto acompanha um estudo em que a pergunta foi testada até o fim. Mantendo tudo o mais constante, a frota foi aumentada progressivamente, e o resultado de cada configuração foi medido em produção e em custo por tonelada. A conclusão contraria a intuição — e aponta para um recurso bem mais barato.

O ponto de partida

Uma usina com meta de moagem de 19.500 toneladas por dia, com a frota de rodotrens dimensionada pela conta clássica: divide-se a meta de produção pela capacidade diária de cada caminhão. No dimensionamento determinístico, feito em planilha, 27 conjuntos bastavam.

A simulação do mesmo cenário devolveu 16.245 toneladas por dia. Um déficit de 3.255 toneladas diárias em relação à meta.

19.500meta de moagem, t/dia
16.245entregue no cenário base, t/dia
27rodotrens dimensionados
30 minpermanência no campo por viagem

A conta determinística dimensiona a frota como se não houvesse fila. Na operação real sempre existe alguma espera, e é ela que abre o déficit. Pior: em planilha não há como enxergar o ganho de um reboque reserva, porque a planilha não representa a espera que ele elimina.

A resposta óbvia

O caminho da força bruta foi testado primeiro. Tudo igual — despacho dinâmico, sem reboque reserva, mesma capacidade de colheita e de recepção — variando apenas o tamanho da frota.

FrotaProduçãoCusto
27 rodotrens16.425 t/diaR$ 11,20/t
32 rodotrens17.656 t/diaR$ 11,09/t
37 rodotrens18.471 t/diaR$ 11,11/t
42 rodotrens18.792 t/diaR$ 11,26/t
46 rodotrens19.014 t/diaR$ 11,39/t

Custo mínimo em 32 conjuntos; a partir daí a curva vira para cima. Nenhum dos cinco cenários atinge a meta.

Setenta por cento mais caminhões produziram dezesseis por cento mais cana. E a meta seguiu fora de alcance nos cinco cenários.

Por que a curva vira

A partir do trigésimo segundo conjunto, cada rodotrem adicional entrega cada vez menos cana e continua custando integralmente. Depreciação, manutenção e motorista entram na conta inteiros; a produção entra em migalhas.

Quando o gargalo não é o caminhão, caminhão novo entra na conta do custo e não entra na conta da produção.

Onde o tempo estava

Na conta determinística, a permanência no campo entra como premissa: doze minutos por composição na equação do ciclo, supondo transbordo pronto e nenhuma espera. A simulação devolveu outra coisa — e, mais revelador, devolveu números que pioram conforme a frota cresce.

CenárioTempo no campo
Premissa da conta de frota12 min
Simulação · 27 rodotrens30 min
Simulação · 37 rodotrens56 min
Simulação · 46 rodotrens85 min

Série 1: 27 a 46 rodotrens, sem reboque reserva, despacho estático.

A explicação está no acoplamento entre carregar e transportar. O cavalo mecânico ficava engatado durante todo o carregamento, no ritmo da colhedora, não no ritmo dele. Cada caminhão adicional não encurtava a espera — entrava na mesma fila e a alongava.

Desengatar custa menos que comprar

Em vez de mais cavalos mecânicos, semirreboques reserva na lavoura. O caminhão chega, larga o vazio, engata o cheio e sai. O carregamento passa a acontecer sem o cavalo mecânico em cima dele.

+17%de produção, sem um cavalo mecânico a mais
−R$ 1,90em cada tonelada moída
30 → 9 minde permanência no campo

Mesma frota de 27 rodotrens: de 16.425 para 19.184 toneladas por dia, e de R$ 11,20 para R$ 9,30 por tonelada. O gargalo nunca esteve no transporte. Estava no acoplamento entre carregar e transportar — e o recurso que resolve isso é o mais barato dos dois.

O ponto de saturação

A mesma lógica que segura a frota de caminhões vale para o reboque reserva. Ele também tem hora de parar.

Reboques reservaCustoTempo no campo
5 reservasR$ 9,63/t13 min
10 reservasR$ 9,30/t9 min
15 reservasR$ 9,31/t8 min
20 reservasR$ 9,37/t8 min
50 reservasR$ 9,81/t8 min

Depois do décimo conjunto a produção estabiliza, o tempo de campo trava em oito minutos e o custo volta a subir.

Todo recurso tem um ponto em que deixa de destravar e passa a pesar. O trabalho é achar esse ponto antes da ordem de compra, não depois.

O desfecho

Entre os setenta e dois cenários simulados, a configuração de menor custo combinou 29 rodotrens, 10 reboques reserva na lavoura, despacho dinâmico e descarga direta na usina, sem bate-volta. Meta atingida, a R$ 9,30 por tonelada.

ConfiguraçãoCustoMeta
Força bruta · 46 rodotrensR$ 11,39/tnão atingida
Simulada · 29 rodotrens + 10 reservasR$ 9,30/tatingida

Dezessete cavalos mecânicos a menos e R$ 2,09 a menos por tonelada. Comparação entre cenários do mesmo modelo, na mesma base de custos.

A decisão cara não era comprar caminhão. Era comprar caminhão sem antes descobrir onde o tempo estava sendo perdido.

O que este resultado não mostra

  • O ponto ótimo é daquela usina. Muda com distância, mix de corte e custo de capital.
  • O modelo não decide nada — ele mostra o que acontece antes de o dinheiro sair.
  • Sem apontamento na frente de corte, nenhum modelo acerta o tempo de campo.

Sobre os valores em reais: os custos são de safra de aproximadamente 2008 e não servem como referência de preço hoje. O que continua válido é a comparação relativa — a ordem entre os cenários, o ponto de saturação e a direção em que a curva de custo vira. Refazer o estudo com custos atuais muda os números; não muda a conclusão.

Simulação não substitui quem opera. Ela tira o palpite do meio de uma decisão de sete dígitos.

Os dados vêm de dissertação de mestrado em Engenharia de Sistemas Logísticos, com modelo de simulação de eventos discretos calibrado para a operação estudada.

Publicado originalmente como carrossel no LinkedIn · baixar em PDF

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