Parada de moenda por falta de cana é das perdas mais caras que uma usina acumula numa safra. A indústria fica ociosa com o custo fixo correndo, a cana que esperava no campo perde qualidade, e o que se deixou de moer não se recupera — a safra tem prazo.
Diante disso, a reação padrão é olhar para a frota. Mas antes de discutir quantos caminhões faltam, há duas decisões que não exigem capital nenhum e mexem diretamente no custo por tonelada: como o despacho é feito, e se a operação usa bate-volta na usina.
O sistema que precisa ser enxergado inteiro
Corte, carregamento e transporte não são três operações que acontecem em sequência. São três operações que disputam os mesmos recursos ao mesmo tempo.
A colhedora corta no campo. O transbordo — trator com carreta — leva a cana até a beira do talhão. O rodotrem transporta até a usina, onde a cana é pesada, descarregada e moída. Cada elo depende do ritmo do anterior e devolve pressão ao seguinte.
Um recurso ocioso em um elo não é folga: é fila em outro. É por isso que dimensionar cada equipamento isoladamente, cada um pela sua própria conta, produz um sistema que não fecha.
As três variáveis que foram testadas
O estudo simulou 72 cenários, combinando três decisões de ponta a ponta.
Estratégia de despacho, estática ou dinâmica. Na estática, cada caminhão é fixado a uma frente de corte. Na dinâmica, o caminhão vai para a frente que precisa dele naquele momento.
Reboques reserva na lavoura, de zero a vinte unidades. Sem reserva, o cavalo mecânico fica engatado durante todo o carregamento, no ritmo da colhedora. Com reserva, ele larga o vazio, engata o cheio e sai.
Bate-volta na usina, com ou sem. É o mesmo princípio aplicado à descarga: ou o conjunto espera descarregar, ou deixa o carregado e leva outro.
O artigo sobre dimensionamento de frota trata em detalhe da segunda variável, que foi a de maior impacto. Aqui interessam a primeira e a terceira.
Por que o despacho dinâmico ganha
Com despacho estático, uma frente que produz acima do esperado deixa seus caminhões dedicados em fila, enquanto os caminhões da frente vizinha estão parados esperando cana. A capacidade existe, só está no lugar errado.
A produção de uma frente de corte varia ao longo do dia — quebra de colhedora, variedade de cana, condição do terreno, chuva. Fixar frota a frente é apostar que essa variação não acontece.
O despacho dinâmico não elimina a variação. Ele deixa a frota absorvê-la.
| Estratégia | Custo |
|---|---|
| Dinâmico, sem bate-volta | R$ 9,30/t |
| Dinâmico, com bate-volta | R$ 9,90/t |
| Estático, sem bate-volta | R$ 10,40/t |
| Estático, com bate-volta | R$ 11,10/t |
Valores apurados no estudo, em custos de safra de aproximadamente 2008. Não servem como referência de preço hoje; o que se sustenta é a ordem entre as estratégias e a distância relativa entre elas.
O bate-volta que não compensou
Este é o resultado que costuma surpreender, porque contraria a intuição de que desacoplar é sempre melhor.
Na lavoura, o reboque reserva foi o que mais reduziu custo. Na usina, o bate-volta piorou o resultado nas duas estratégias de despacho.
A diferença está em quanto tempo se economiza e a que preço. No campo, o carregamento leva dezenas de minutos, e liberar o cavalo mecânico desse tempo vale muito. Na usina, a descarga é rápida — e o bate-volta exige um parque adicional de semirreboques circulando, que custa integralmente e economiza pouco.
A mesma técnica, aplicada em dois pontos do mesmo sistema, tem sinais opostos. É exatamente o tipo de coisa que só aparece quando os cenários são comparados por custo unitário, e não por preferência de método.
A configuração de menor custo
Entre os 72 cenários, o melhor combinou despacho dinâmico, sem bate-volta na usina, com 29 rodotrens e 10 reboques reserva nos pátios de transbordo. Custo de R$ 9,30 por tonelada.
Das três variáveis, duas não exigem investimento em frota. Mudar a lógica de despacho é decisão de gestão. Abandonar o bate-volta na usina é decisão de processo. Só a terceira, os reboques reserva, envolve compra — e ainda assim é o equipamento mais barato do conjunto, não o cavalo mecânico.
O que este resultado não mostra
- A ordem entre as estratégias vale para a operação estudada. Distância, mix de frentes e capacidade de recepção mudam a magnitude.
- O bate-volta desfavorável aqui não significa que ele seja ruim em toda usina. Onde a descarga for lenta ou a fila de recepção for longa, a conta pode inverter.
- Os valores em reais são de safra de aproximadamente 2008. Refazer o estudo com custos atuais muda os números; não muda a ordem entre os cenários.
- Sem apontamento confiável na frente de corte, nenhum modelo acerta o tempo do sistema.
A pergunta do título tem, portanto, uma resposta menos cara do que parece. Antes de dimensionar frota, vale testar as decisões que já estão ao alcance de quem opera.
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