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SOMÁTICA — Consultoria em Logística

Insights · Dados na logística CCT

A média estava boa. E mesmo assim faltava cana.

O que 19,6 mil pesagens revelaram sobre a ruptura de abastecimento — e por que o indicador que todo mundo olhava nunca ia mostrar.

João UmbiruçuConsultor em Logística8 min de leitura
Rodotrem carregado de cana em estrada de talhão

O diretor agrícola relatou falta de cana na moenda. Os coordenadores olhavam a carga média do rodotrem — 68,7 t contra uma meta de 60 t estabelecida pela própria operação — e não achavam o que explicar. O carregamento estava 15% acima do alvo.

O indicador não estava errado. Estava respondendo outra pergunta.

O que segue é a auditoria da base de pesagem dessa operação. Nenhum sistema novo, nenhum sensor, nenhuma telemetria: a análise inteira saiu do arquivo que a balança já produzia todos os dias.

19,6 milregistros de entrada e saída na balança
44conjuntos, todos rodotrem
11frentes de corte, manuais e mecanizadas
1,31 mitoneladas movimentadas na safra

A média de três populações não é a média de ninguém

A base não tinha um centro. Tinha três. E a média global caía exatamente no vão entre elas — um valor que não descrevia a carga de nenhuma frente da operação.

Grupo de frentesCarga médiaParticipação
Mecanizadas (A a G)74,6 t78% das viagens
Manuais (H, I, J)50,1 t18% das viagens
Frente K40,3 tbimodal: 40 t e 80 t
Média global68,7 ta carga de nenhuma delas

A frente K tinha dois modos separados por fator exatamente 2,00 — 39,6 t e 79,5 t. Variação de carregamento não produz número redondo: ou o conjunto saía com um semirreboque só, ou a composição estava cadastrada errada na balança.

Segmentar antes de resumir. Uma média só descreve alguma coisa quando existe uma coisa só para descrever.

Nem toda anomalia é operação

Quase 5 mil viagens tinham permanência longa. Pareciam caminhões retidos no pátio. Um teste simples desmontou a leitura: a próxima entrada do mesmo conjunto acontecia antes da saída registrada. O caminhão já estava rodando.

Faixa de permanênciaSobreposição com a viagem seguinte
20 a 180 min2,3%
3 a 6 h40,3%
6 a 12 h80,5%
12 a 24 h93,3%
acima de 24 h96,1%

61% das anomalias não eram caminhão parado. Eram saída não baixada na portaria.

Antes de explicar um número estranho, teste se ele é fisicamente possível.

O absurdo físico é o melhor detector de erro que existe

Para decompor o ciclo, regredi o tempo contra a distância da frente. O coeficiente deu 1,91 min/km. Dividi 60 por ele e cheguei a uma velocidade implícita de 31 km/h. Corrigindo a distância para ida e volta, virou 63 km/h.

Rodotrem carregado não faz 63 km/h em estrada de canavial. E essa impossibilidade era a evidência: coeficiente de regressão não é velocidade. Ele mistura tempo de estrada com diferenças de espera entre frentes próximas e distantes.

Sem apontamento na frente de corte, velocidade e tempo de espera não são calculáveis. Nem com o melhor modelo. Se o número não cabe no mundo real, o problema é seu — não do mundo.

A ruptura nunca esteve na carga. Estava na contagem.

A tonelagem de um dia é o número de viagens multiplicado pela carga média. Ao longo da safra, só um dos dois fatores se mexe.

18 → 214viagens por dia · amplitude de 1.089%
59,5 → 77,4 tcarga média diária · amplitude de 30%

Os coordenadores olhavam a carga porque presumiam um problema de nível. A ruptura era um problema de frequência — e por isso nunca aparecia no indicador que estavam olhando.

O indicador certo já estava na balança o tempo todo. Contando apenas as chegadas, a tonelagem que vai fechar o dia se explica cedo:

Hora do diaTonelagem do dia já explicada
05h79%
09h84%
13h89%
17h95%

Erro típico da projeção das 9h: 1.100 t. Tempo suficiente para acionar frente, remanejar frota ou avisar a moagem antes de o prejuízo consolidar.

Todo dia, às cinco da manhã

A entrega não cai de forma aleatória. Entre 05h e 06h ela despenca contra a mediana das outras horas — nos sete dias da semana, com piora nas sextas, sábados e domingos.

−19%−17% −21%−15% −26%−25% −26% SegTer QuaQui SexSáb Dom
Queda da entrega entre 05h e 06h, contra a média do próprio dia. Barras mais escuras: fim de semana.

É troca de turno nas frentes de corte. A lacuna no carregamento chega à indústria com o atraso de uma viagem — e vira falta de cana na moenda.

Escalonar a troca de turno em trinta minutos recupera cerca de 230 t por dia. Esforço de implantação: baixo.

O que a base não tinha

Quatro informações que não existiam, e que teriam mudado a profundidade do diagnóstico:

  • Chegada e saída na frente de corte
  • Tempo de trajeto e velocidade real
  • Motivo da parada de recebimento
  • Composição real do veículo na balança

São 139 minutos por ciclo — 35% do tempo de cada conjunto — que não aparecem em nenhum componente medido. Sem apontamento na frente, esse terço da frota continua sendo uma caixa-preta. Diagnóstico honesto declara o que não pôde ser respondido; o resto é achismo com gráfico.

O diagnóstico completo deste trabalho está publicado como estudo de caso:ver o case.

Publicado originalmente como carrossel no LinkedIn · baixar em PDF

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