Case · Diagnóstico · Planejamento de colheita · Dimensionamento de frota
Quando quem fornece a cana decide onde colher
Diagnóstico de CCT em uma companhia agrícola em que os fornecedores têm peso na decisão de onde colher
- Ano
- 2017
- Campo
- 4 dias
- Base analisada
- 121 dias de safra
- Natureza
- Oportunidade
Metade da cana processada vinha de fornecedores com áreas nas terras mais próximas da indústria, e com influência sobre o planejamento. Eles colhiam primeiro. A consequência aparecia meses depois, na forma de um raio médio que crescia justamente quando começava a chover.
O contexto
Quem tem influência no planejamento colhe primeiro
O cliente é uma companhia agrícola de cana-de-açúcar. Ela responde pelo corte, carregamento e transporte, e entrega a cana a uma unidade industrial operada por outra empresa. O terreno é em parte declivoso, pouco favorável ao tráfego de transbordos e de caminhões canavieiros, e uma parcela relevante do volume processado vem de áreas distantes e de baixa produtividade.
A característica que define o caso é de governança. Cerca de metade da cana pertence a fornecedores com influência sobre as decisões da companhia, e cujas áreas ficam nas terras mais próximas da indústria. O planejamento da safra é feito por equipe própria, com software especialista e com base nas variáveis corretas: ciclo varietal, idade de corte e raio médio. Só que a decisão final sobre quais áreas colher sofria pressão de quem tinha interesse direto no resultado dela.
Na prática, essas áreas próximas eram colhidas no início da safra, ainda que fora do ponto ótimo agronômico. O que sobra para o fim da safra é o que está longe.
O achado central
O raio médio subia quando deveria cair
O comportamento desejável do raio médio ao longo de uma safra é o inverso do que encontramos. Ele deveria manter-se linear ou, de preferência, diminuir no fim da safra — justamente para compensar as dificuldades que o regime de chuvas impõe ao CCT. Aqui ele fazia o contrário.
Analisamos 121 dias corridos de safra. O raio médio planejado era de 29,3 km, com tolerância de 15% para mais ou para menos.
Gráfico — raio médio contra a faixa de tolerância. Eixo horizontal em quilômetros. Faixa de tolerância destacada entre 24,9 e 33,7 km. Barra da variação observada estendendo-se de 14,1 a 40,0 km, ultrapassando a faixa nos dois sentidos. Marcador do raio médio planejado em 29,3 km e do praticado ponderado em 25,6 km. Classe de evidência: medido.
Destaque. A distância planejada foi violada em 58 dos 121 dias — quase metade da safra analisada. A cana transportada fora da faixa de tolerância representou 48,3% de toda a produção do período.
O raio médio ponderado do período, 25,6 km, ficou abaixo do planejado. De novo, o número consolidado tranquiliza e o dia a dia contradiz.
A divergência entre planejado e realizado tinha duas causas registradas: fogo acidental, que é evento externo, e a interferência dos fornecedores durante a safra, que não é.
A consequência
Frota dimensionada por uma média que quase nunca acontece
O dimensionamento da frota de caminhões e de máquinas partia do raio médio geral da safra. É o procedimento usual do setor, e ele só funciona se a distância real orbitar em torno da média. Quando ela oscila entre 14 e 40 quilômetros, a frota dimensionada pela média está errada quase todo dia — sobrando ou faltando.
Aplicando a variação diária observada sobre esse dimensionamento, dos 121 dias analisados 51 tiveram frota ociosa e 7 tiveram déficit. São dois problemas distintos e ambos custam: nos dias de folga paga-se por caminhão parado; nos dias de déficit, arrisca-se a parada da moenda por falta de cana, que é a perda mais cara do setor.
A recomendação não foi comprar nem cortar frota. Foi mudar a granularidade do dimensionamento — calcular por períodos mensais ou quinzenais, o que permite replanejar o sequenciamento da colheita para que a frota existente atenda a safra inteira, e tratar a variação do raio médio como variável de decisão do planejamento, e não como resultado dele.
Junto veio a recomendação mais difícil, porque não é técnica: intensificar o convencimento dos fornecedores de que o planejamento precisa seguir as premissas agronômicas da cultura. Nenhum ganho logístico se sustenta enquanto a ordem de colheita for decidida por quem tem interesse na própria área.
Onde o tempo se perdia
O equipamento estava bem. O ciclo, não.
Este ponto merece registro porque contraria a suspeita inicial. As máquinas não eram o gargalo. Reconstruindo a disponibilidade mecânica a partir das ordens de serviço de três meses, a operação estava acima do referencial do setor nos dois equipamentos comparáveis.
| Equipamento | Apurado | Referencial |
|---|---|---|
| Colhedora — 3 h de parada por intervenção, a cada 20 h corridas | 87% | 82,2% |
| Trator de transbordo — 7 h de parada por intervenção, a cada 120 h corridas | 94% | 90,5% |
| Caminhão de transbordo — 16 h de parada por intervenção, a cada 76 h corridas | 79% | — |
Com o equipamento disponível, o tempo estava sendo perdido em outro lugar — na organização da frente e no pátio de recebimento.
Tempo de palhada acima de uma hora. O tempo em que o caminhão fica na lavoura, esperando carregamento ou troca de conjuntos, passava de uma hora nos dias do diagnóstico. O desejável é abaixo de quinze minutos. É indicativo direto de falha na gestão da frente: quando o pátio de transbordo fica longe das colhedoras, o transbordo demora a ir e voltar, e o caminhão paga a conta.
Transbordamento por um lado só. A transferência da carga era feita por apenas um dos lados da caixa do rodotrem, o que dificulta completar a carga e atrasa a liberação do caminhão. Na segunda frente visitada configuramos em campo o carregamento simultâneo pelos dois lados, com reposicionamento do pátio e da área de vivência.
Bate-volta prejudicado por piso e por sapata. Os pátios de transbordo não eram fixos e o piso não recebia compactação, o que obrigava a transferir a última carga com o conjunto ainda engatado no cavalo mecânico. Somava-se a isso a manutenção deficiente das sapatas dos rodotrens, que dificultava ou impedia o desengate. Duas causas banais anulando a prática que dá eficiência ao transporte.
Nove minutos por viagem na balança. O rodotrem passava pela balança também na saída, vazio. Adotando tara automática — procedimento já usado em outras operações, sem prejuízo ao registro de produção —, o tempo de permanência cai nove minutos por viagem.
Mix de modelos de transbordo. Conviviam três configurações: base caminhão, trator com uma caixa e trator com duas caixas. O mix dificulta ajustar a carga média do rodotrem e a bitola dos rodados, amplia o estoque de peças, exige mais do mecânico e atrapalha o balanceamento entre transbordo e colhedora.
Despacho decidido em painel físico. Havia software de despacho, mas a frente de destino do caminhão era definida num quadro físico e depois apenas registrada no sistema. O software estava servindo de arquivo, não de ferramenta de decisão.
A base de dados
O indicador estava medindo a coisa errada
O tempo de permanência do caminhão era apurado de balança a balança. Só que o registro de saída acontece na pesagem vazio — e antes dela o caminhão pode ter ido à oficina. O indicador, portanto, somava tempo de manutenção ao tempo de descarga e culpava o pátio por uma parada que era da automotiva.
O mesmo vale para a produção: a cana entregue só era registrada no momento da pesagem vazio, quando o correto é registrar pelo horário de entrada. A base trazia registros de tempo de permanência variando de zero a 64 horas; para conseguir analisar, foi preciso considerar válidos apenas os valores entre 15 e 240 minutos.
Esta mesma base foi depois auditada em profundidade, em análise publicada separadamente: as 19,6 mil pesagens revelaram três populações de carga escondidas numa média, anomalias de permanência que eram falha de portaria, e a variável que realmente explicava a ruptura. Ver o artigo A média estava boa. E mesmo assim faltava cana.
Corrigir o momento do registro não custa nada e muda o que o indicador diz. É o tipo de ajuste que precisa vir antes de qualquer meta, porque estabelecer meta sobre medição errada só transfere a pressão para quem não causou o desvio.
O campo
O diagnóstico desceu até a faquinha do corte de base
Um diagnóstico de CCT que para no dado não enxerga por que o dado é o que é. Dois dias foram gastos dentro das frentes de colheita, com a equipe do cliente junto, verificando equipamento e organização.
Na primeira frente, a colhedora operava com discos gastos e empenados, faquinhas curtas ou ausentes e garras de arraste em tamanho que obstruía a alimentação da máquina. O efeito é encadeado: embuchamento, quebra de cana, perda de canas inteiras e em pedaços, e arranquio de soqueira. A chapa flutuante do divisor de linha havia se perdido, o que agrava a perda. Era uma colhedora nova, de alta capacidade, operando de um jeito que ao mesmo tempo reduzia a produção e comprometia a safra seguinte.
As bitolas também estavam fora de conformidade — trator com abertura de 1.900 mm e transbordo com 3.000 mm. Quando uma roda corre fora da linha, a do outro lado corre sobre a soqueira. Somado ao tráfego indiscriminado sobre a área produtiva, é compactação de solo, que é perda de produtividade na safra seguinte.
E havia o básico: pátios fora das dimensões definidas, área de vivência posicionada dentro do limite do pátio quando deveria estar recuada quinze metros, calcário estocado no meio da área de manobra. Nenhuma dessas correções exige investimento. Todas exigem alguém verificando.
Destaque. Vale registrar o que estava certo, porque um diagnóstico que só lista defeitos não é confiável. Os operadores demonstravam domínio dos equipamentos, os EPIs eram usados corretamente, a fila única de transbordo por radiocomunicação já funcionava, a prática do operador mantenedor já estava adotada, a manutenção de campo tinha boa infraestrutura, e a equipe estava visivelmente engajada com o abastecimento da indústria.
Nota metodológica
O que este case não comprova
- Este é um diagnóstico de quatro dias. Os desvios foram identificados e quantificados; não houve auditoria posterior à implantação das recomendações, e nenhum ganho realizado é reivindicado aqui.
- Os dias de ociosidade e de déficit de frota resultam da aplicação da variação diária de raio médio sobre o dimensionamento praticado. O relatório registra que não foi possível identificar como o dimensionamento original havia sido feito.
- A análise de disponibilidade mecânica usou um sistema de controle recém-implantado no cliente, cujos apontamentos ainda estavam em aprimoramento. Os números foram considerados suficientes para a análise, com essa ressalva declarada.
- O indicador de consumo de óleo hidráulico das colhedoras apareceu muito acima do referencial setorial, mas de forma incompatível com a alta disponibilidade das máquinas. O relatório recomendou reavaliar a base do indicador em vez de tratar o número como achado. Ele não é reproduzido aqui.
- Achados marcados como observados vêm de constatação nas frentes visitadas durante os quatro dias, sem série estatística por trás.
- Empresas, pessoas, fornecedores, sistemas, fazendas e localidades citados no relatório original não são identificados aqui.
Achados
| Resultado | Valor |
|---|---|
| Dias com violação do raio médio planejadoDe 121 dias corridos de safra analisados | 58 dias |
| Produção transportada fora da faixa de tolerânciaFaixa de ±15% em torno de 29,3 km | 48,3% |
| Amplitude do raio médio ao longo da safraContra um planejado de 29,3 km | 14,1 a 40,0 km |
| Dias com frota ociosa por dimensionamento pela médiaMais 7 dias com déficit de frota | 51 dias |
| Carga média por viagem na colheita mecanizadaCana crua, período de quatro meses | 73 t |
| Disponibilidade mecânica das colhedorasReferencial setorial de 82,2% | 87% |
| Tempo de palhada verificado em campoDesejável abaixo de 15 minutos | > 1 hora |
| Redução do tempo de permanência com adoção de tara automáticaElimina a passagem pela balança na saída | 9 min/viagem |
| Faixa de registros inválidos na base de tempo de permanênciaVálidos considerados entre 15 e 240 minutos | 0 a 64 h |
Ficha do case
| Setor | Cana-de-açúcar |
| Cliente | Companhia agrícola de cana-de-açúcar. Nome não divulgado |
| Região e período | Sudeste do Brasil · agosto de 2017 |
| Disciplinas | Diagnóstico, Planejamento de colheita, Dimensionamento de frota |
Nota de compliance. Por exigência de compliance, o nome do cliente não pode ser divulgado. Foram suprimidos nomes de empresas, pessoas, fornecedores, sistemas, fabricantes de equipamento, fazendas e localidades. Os números apresentados são os do trabalho original, sem alteração.
Sua operação tem um sistema parecido?
Diagnóstico, dimensionamento de frota e redesenho de operações. A primeira conversa serve para entender onde está o problema.
Falar com o consultor